Dom Pedro Brito Guimarães,

Arcebispo de Palmas

“Possamos, ó Deus Onipotente, saciar-nos do pão celeste e inebriar-nos do vinho sagrado, para que sejamos transformados naquele que agora recebemos” (Oração pós-comunhão do 27º DTC).

Um dia desse, num encontro com catequizandos, uma criança me parou e me perguntou: “por que a eucaristia é tão importante?”. “Importante” talvez não seja a palavra mais adequada para definir a eucaristia. Mas pergunta de criança precisa sempre ser considerada, afinal, “o perfeito louvor é dado pelos lábios dos pequeninos” (Sl 8,3). O que então lhe respondi? - “A eucaristia é Jesus. A eucaristia é importante porque Jesus é importante”. A eucaristia nasce de uma pessoa: Jesus; nasce de um corpo doado e de um sangue derramado: o corpo e o sangue de Jesus; nasce de um apostolado e de uma missão: o apostolado e a missão de Jesus. Por isto, para entender a eucaristia é preciso entender quem é Jesus Cristo. A eucaristia é Jesus, sua pessoa, sua vida, sua missão, seu corpo e seu sangue, doado e derramado por nós. A eucaristia é “cristofania”: é e fala de Cristo. O lugar, portanto, da eucaristia é na cristologia. Na sacramentária, a eucaristia é o único sacramento que teologicamente pode ser definido assim. De fato, foi Jesus mesmo que assim se auto definiu: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6,51). “Isto é meu corpo; isto é meu sangue” (Mc 14,22-23). E para concretizar ainda mais o realismo desta sua auto definição, Paulo pergunta: “o cálice da bênção, que bebemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é a comunhão do Corpo de Cristo?”.

A eucaristia é o mistério da fé”, “o tão sublime sacramento”, e o “sacramento de piedade, sinal de unidade e vínculo de caridade” (Santo Agostinho). “Crer em Cristo significa querer a unidade; e querer a unidade significa querer a Igreja; e querer a Igreja significa querer a comunhão da graça que corresponde ao desígnio do Pai, desde toda a eternidade” (Dom José Luis Lacunza, bispo de David, Panamá). Por isto, não se deve dizer, como comumente se diz, na piedade popular: “graças e louvores se deem a todo momento, ao Santíssimo e ‘digníssimo’ Sacramento”. Embora Jesus seja digno de honra e de louvor, neste caso, não se trata da sua dignidade, mas da sua divindade. Ele é divino, mais ainda Diviníssimo. O correto então é dizer: “ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento”.

Faço meu o testamento eucarístico de Don Tonino Bello: “quando a igreja me pedir qualquer coisa, espero não ter nada para lhe dar, além disto: nem dinheiro nem prestígio e nem poder. Somente água, vinho e pão. Esta é a triologia de uma existência reduzida ao essencial”. E faço também meu o testamento eucarístico de São João Paulo II, o papa da missão e da eucaristia: “pude celebrar a santa missa em capelas situadas em caminhos de montanhas, nas margens dos lagos, à beira do mar; celebrei-a em altares construídos nos estádios, nas praças das cidades (...) Este cenário tão variado das minhas celebrações eucarísticas faz-me experimentar intensamente o seu caráter universal e, por assim dizer, cósmico. Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja de aldeia, a eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo. Une o céu e a terra. Abraça e impregna toda a criação. Assim, Ele, o sumo e eterno Sacerdote, entrando com o sangue da sua cruz no santuário eterno, devolve ao Criador e Pai toda criação redimida (...) Verdadeiramente este é o mysterium fidei que se realiza na eucaristia: o mundo saído das mãos de Deus criador volta a Ele por Cristo”.

Por fim, que na Festa de Corpus Christi, por meio de uma vida reduzida ao essencial, possamos dizer o que disseram os mártires de Abitene: “sem eucaristia não podemos viver”.